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OPINIÃO | A farsa que se constrói depois dos eventos de Juiz de Fora

Ignacio Delgado, do Facebook

O esfaqueamento do candidato da extrema direita é inaceitável no jogo democrático e foi condenado sem titubeios por todas as forças políticas. Tornou-se o centro da cobertura da mídia familiar a oligárquica e pode ter efeitos no curso da campanha eleitoral.

Implausível a hipótese da armação, seja como farsa, seja por iniciativa dos adversários do candidato atingido. Até o momento, tudo indica ser ação isolada de uma pessoa desequilibrada, inflamada pelo clima de ódio criado no país pela mídia e pela direita política, com seus braços no parlamento, no Executivo e no Judiciário. Na verdade, fora o dano físico, apenas o fascista pode faturar algum dividendo político com o episódio, como o registraram o comportamento eufórico dos “mercados” logo em seguida e o pronunciamento de seu filho sobre a possibilidade de vitória no primeiro turno.

No mais, na véspera do evento ocorreu o encontro do fascista com um alto dirigente das Organizações Globo que, tudo indica, adotou-o como a grande esperança branca da reação, desfeitas as expectativas de crescimento de Alckmin e as incertezas e quase certa desidratação de Marina. As presenças de Álvaro Dias e Amoedo na disputa – o primeiro se apresentando como o representante da Lava Jato, o segundo portador de um discurso liberal doutrinário pueril, “descolado”, com o tempero da postura anti-política – reduzem ainda mais as chances de Alckmin e Marina, tornando a opção pelo fascismo a alternativa derradeira da direita.

[De todo modo, numa eleição marcada pelo tapetão recorrente, a começar pela interdição de Lula num processo carregado de vícios, registre-se que, no cenário indicado acima, abre-se a oportunidade para algum tipo de coordenação entre os candidatos de centro-esquerda, de modo a evitar que a disputa pela vaga no segundo turno, não favoreça a ressurreição das alternativas em declínio no campo da direita].

Nos fascismos históricos, a adesão das elites econômicas e a tibieza dos liberais diante de seu avanço se verificaram em ambientes marcados pela ameaça real de uma ruptura revolucionária. No caso do Brasil, isso nunca esteve em questão. O que se vê aqui é apenas a demonstração cabal da incipiência moral e política das classes dominantes do país, diante de uma alternativa que, quando no governo, propôs e conduziu medidas singelas e compartilhadas de reversão gradual das iniquidades da trajetória capitalista brasileira e de afirmação soberana do país na cena internacional. Por seu turno, diferentemente dos fascismos históricos, sua versão brasileira atual é absolutamente avessa a qualquer projeto econômico nacional (tal como, lamentavelmente, a maioria do empresariado) propugnando abertamente a integração subalterna do país aos polos dominantes da ordem capitalista global. O que resta é exaltação da violência como método básico da disputa política, a defesa do extermínio do inimigo, o racismo, a misoginia, a homofobia, o desprezo pelo Estado de Direito.

Há que se condenar resolutamente o ataque ao candidato da extrema direita, porque, por princípio, abjuramos tais práticas na luta política. Mas não se pode esquecer seus enunciados sobre como lidar com os quilombolas, a comunidade da Rocinha, os petistas, as mulheres, os homossexuais. Liberais de verdade não podem coonestar com isso, embora na matriz udenista da maior parte de seus representantes no país, o flerte com o autoritarismo seja recorrente, dada a virtual impossibilidade de verem suas propostas alcançarem a maioria na preferência popular em eleições democráticas.

A utilização política do episódio ocorrido em Juiz de Fora pela mídia, em especial a Globo, terá como mote torná-lo produtor de uma epifania, que acarreta a metamorfose do fascista, destacando sua disposição para a concórdia e a conciliação, de modo a torna-lo assimilável para espíritos menos toscos, mais sensíveis. Encontrar um modo de desmistificar esta farsa é uma responsabilidade de todos os democratas nas próximas semanas. Que não seja no horário eleitoral, mas nas rodas de conversa, nas redes, nos pronunciamentos e ações, esta operação camaleônica precisa ser desmistificada.

Para salvar o que resta da democracia brasileira.

09-08-OPINIAO