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Margarida Salomão analisa ataque às Ciências Humanas em palestra na Universidade Federal de São Carlos

Deputada federal (PT-MG) desde 2013, Margarida Salomão, ministrou na UFSCar nesta quinta-feira (27) a palestra “As ciências (humanas) em questão: produção de conhecimento, universidade e democracia”.

O evento foi organizado pela docente Flavia Hirata Vale por meio do Programa de Pós Graduação em Linguística (PPGL) e pela CECH – UFSCar

Não é a primeira vez que vem a São Carlos. Pioneira da Linguística Computacional no Brasil, Margarida é doutora pela Universidade da Califórnia, em Berkeley. Foi docente e reitora (1998 e 2006) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e vice presidente da Associação Nacional de Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), quando o presidente era o então reitor da UFSCar, Oswaldo Barba, que esteve presente na palestra.

Margarida falou sobre o surgimento da sociedade do conhecimento a partir da segunda metade do século 20, quando o conhecimento passa a ter valor econômico e “reenquadra” as Ciências Humanas, ao mesmo tempo em que ocorre um fenômeno mundial de “endurecimento autoritário do neoliberalismo”.

Também observou que o pacto democrático é desfeito nas universidades, “pela apropriação ou ressignificação” enquanto instituição operacional, que “deixa de ser uma instância crítica e passa a ser apenas formadora”.

Trechos da fala de Margarida Salomão:

“O conhecimento é o ambiente em que a espécie humana prospera. Tornar-se humano é aprender a falar e agir com uma determinada sociabilidade. O que há de específico na espécie?”

“O que nos diferencia é a construção coletiva do saber pela cooperação. Como nós aprendemos e como o conhecimento se diversifica e o quanto somos capazes de variar? Segundo o Instituto Max Planck, há hoje no mundo 6 mil línguas faladas. Isso é porque nossas formas de sociabilidade são tão variadas que somente a construção coletiva do conhecimento respondem”

“O [Michael] Hardt e o [Toni] Negri, que escreveram o Império [2000] e Multidão [2004], têm um livro, A Riqueza Comum, e explicam que a riqueza comum, que poderia ser a água, a terra, o ar, mas há uma riqueza no mundo que não tem como ser privatizada e nem estatizada, que é a linguagem humana”

“Temos modos tão diferentes de nos organizarmos, tantos modos de famílias, ritos, crenças. As Ciências Humanas, as ciências da linguagem, a sociologia, a antropologia, a psicologia, têm tornado essas informações disponíveis”

“Conhecimento é poder, ele tem valor político. Não por acaso os grandes filósofos escreviam sobre retórica e política. São temas conectados. Nem todos tinham acesso à escrita. Até meados do segundo milênio tudo o que se escrevia na Europa era em latim”

“Mas hoje conhecimento é dinheiro. Marx já tinha identificado, no Capital ele fala sobre o trabalho imaterial, que caracteriza as revoluções tecnológicas”

“O conhecimento tem cada vez mais uma dimensão econômica, por isso a questão deles [do governo Bolsonaro] é dar valor econômico às Ciências Humanas”

“Qual é o país que mais exporta café no mundo? O Brasil. E qual o país que mais exporta café processado? A Suiça! Nós vendemos o café a seis reais o quilo, enquanto o quilo das cápsulas de café expresso custa quatrocentos reais. A diferença entre eles é o conhecimento, a educação”

“A inovação é um projeto político e econômico – as Universidades Públicas e os Estados são os grandes investidores em inovação no mundo. No livro ‘O Estado Empreendedor’, de Mariana Mazzucato, tem o caso da Apple, vale a pena ler. Muitas tecnologias são desenvolvidas em universidades públicas”

“Na década de 70 eu li sobre a pesquisa de referenciação pronominal que o Ministério da Marinha Americana financiou um professor para estudar porque àquela altura eles já tinham como proposta a inteligência artificial. O Chomsky, grande líder da esquerda mundial, foi pesadamente financiado pelo Pentágono para desenvolver a linguística”

“Onde funciona a web? Dentro do Pentágono. Ela foi desenvolvida pelos Estados Unidos na Guerra Fria porque eles tinham medo dos russos invadirem os computadores americanos”

“Os dados pessoais são a riqueza, conhecimento e informações. As Ciências Humanas são centrais na produção da riqueza do mundo. Não tem como avançar na economia do conhecimento sem Ciências Humanas”

“Há uma guerra contra as ciências humanas por força dessa hegemonia autoritária do neoliberalismo. No pós-guerra tivemos pactuação política que levou ao Estado de bem-estar social. Na década de 1980, na Europa e Estados Unidos, começa a ter uma ofensiva neoliberal, e um discurso em favor da redução do Estado”

“Esse discurso ganhou força com um neoliberalismo autoritário. Aliás, é um contrassenso ter um neoliberalismo autoritário, porque ele é uma forma do liberalismo, que tem como valor central a liberdade”

“A pauta para a sociedade das políticas neoliberais é tão adversa, ‘gente, animem-se vocês nunca vão se aposentar’, ‘vocês vão trabalhar sábado e domingo sem receber nada a mais por isso’, ‘saúde é para quem puder pagar, as pessoas precisam se esforçar’. Este tipo de discurso é muito difícil de fazer, embora tem quem o faça, especialmente esses deputados jovens que foram eleitos. Porém, é muito difícil de passar”

“Ao invés de fazer a disputa econômica e de uma agenda social, eles encobrem com a enunciação de uma pauta eminentemente conservadora. Na eleição passada eu fazia reuniões e dizia que ia acabar o décimo terceiro salário, por exemplo, e alguém perguntava: ‘e o kit gay?’”

“Há uma irracionalidade profunda. A pessoa está atemorizada, ressentida e, portanto, ela se refugia em valores que são imaginários de uma família feliz e passa a se referenciar nisso e não discute o corte dos salários, mas a corrupção do PT; não discute a perda da aposentadoria, mas a proteção à família”

“E isso não acontece só no Brasil. A grande ofensiva mundial da direita é o encobrimento da pauta política”

“No Brasil, isso toma forma de uma luta absolutamente obscurantista. Hoje (27), nós fomos humilhados mundialmente porque o Brasil na ONU disse que gênero é biológico. Posição absolutamente singular e excêntrica porque desconhece toda uma formulação de descobertas da antropologia, por exemplo, de há 150 anos”

“No nosso caso tem ainda a ascensão da extrema direita. Não estava nos planos. Na minha opinião os conservadores brasileiros não queriam eleger o Bolsonaro, queriam o Alckmin, até o Amoedo, primeiro o Aécio, mas ele se tornou inviável. Mas acabou sendo o Bolsonaro”

“Voltamos à década de 1980, quando conquistamos uma Constituição, não só a mais avançada da história do Brasil, mas a possibilidade da esquerda governar. O Lula foi o segundo em 1989, o PT conquistou várias prefeituras até que em 2002 o Lula chegou lá. E longe de termos feito um governo socialista, fizemos um governo de social-democrata, de capitalismo civilizado, com muitos cuidados e mediações, mas em 2005, segundo alguns especialistas, o golpe começa a ser engendrado com a teoria do Domínio do Fato sobre o mensalão”

“Em 2010, o Serra introduziu o termo do aborto. Já se dirigindo a essa pauta conservadora. José Serra era o presidente da UNE e social democrata. E daí por diante começa a se acirrar. Hoje estamos reféns deste tipo de situação”

“Refundar a democracia no Brasil vai exigir outras coisas. Entra o papel das Universidades, que precisam resistir, fazer o que elas já fazem: formar gente, produzir conhecimento, acolher uma nova população”

“A Universidade Pública mudou. 70% dos estudantes procedem de famílias que ganham até um salário e meio, e 51% se auto declaram negros. A universidade ser ocupada por uma população que é socialmente homóloga, aproximada da sociedade brasileira, é uma conquista irreversível. Por isso as pessoas foram para rua no dia 15 de maio, por exemplo. Claro que a classe média branca foi para rua também, porque a universidade pública é prerrogativa. Ela coloca o filho na escola particular a vida toda, mas a universidade é a pública”

“Numa sociedade injusta a mobilidade depende fundamentalmente do acesso à universidade e no Brasil isso está acontecendo, quantas pessoas são a primeira da sua família a ingressar na universidade?”

“A universidade precisa resistir para ajudar a reconstruir a democracia no Brasil. Vivemos numa sociedade onde as pessoas não entendem as denúncias do The Intercept porque viver fora do Estado de direito é uma situação normal. Quem vive no Brasil profundo, na periferia das grandes cidades sabe que a condução coercitiva é todo dia, busca e apreensão na hora. As pessoas não entendem dizer que o juiz estava em conluio com o promotor”

“Nós que sabemos, a universidade que tem o conhecimento, para refundar a democracia no Brasil, precisa fazer com a participação da sociedade. Nós vivemos num país formalmente democrático, mas não é de fato”

“Sou profundamente iluminista, na melhor perspectiva, que é expectativa de transformar a sociedade pela luta, pela educação”.

Fonte: @BondeNotícias